sábado, 2 de dezembro de 2023

Capitulo XX. Do amor da solidão e do silêncio.

 1. Busca tempo acomodado para atenderes a ti mesmo, e considera amiúdo os benefícios de Deus.
Deixa as coisas curiosas e lê livros que sirvam antes para te compungir, que para te ocupar.
Se te retirares de conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir novidades e murmurações, acharás tempo bastante e acomodado para empregar na meditação de coisas boas.
Os maiores santos evitaram quanto podiam a companhia dos homens, e preferiam viver para Deus em seu retiro.

2. Disse um certo homem: quantas vezes estive entre os homens, fiquei menos homem (Séneca). Isto experimentamos muitas vezes, quando falamos muito.
Mais fácil é calar de todo, do que não tropeçar em alguma palavra.
Mais fácil é estar metido em casa, que guardar-se como convém fora dela.
Aquele pois que intenta chegar às coisas interiores e espirituais, importa que se retire da multidão com Jesus.
Ninguém aparece, sem perigo, senão o que voluntariamente se esconde.
Ninguém seguramente fala, senão o que voluntariamente se cala.
Ninguém seguramente preside, senão o que voluntariamente se sujeita.
Ninguém seguramente manda, senão o que perfeitamente aprendeu a obedecer.

3. Ninguém com segurança goza, senão quem em si tem o testemunho da boa consciência.
Sempre, contudo, esteve cheia de temor de Deus a segurança dos santos; nem eram menos cuidadosos e humildes em si mesmos, porque resplandeciam em grandes virtudes e graças.
Porém a segurança dos maus nasce da soberba e presunção, e vem finalmente a parar em seu mesmo engano.
Nunca te tenhas por seguro nesta vida, posto que pareças bom religioso ou ermitão devoto.

4. Muitas vezes perigaram mais gravemente por sua muita confiança, os que eram tidos por melhores na opinião do mundo.
Por isso para muitos é preferível que não estejam de todo livres de tentações, mas que sejam muitas vezes combatidos, para que se não dêem demasiadamente por seguros, nem se exaltem com soberba, e para que não busquem com ânsia as consolações exteriores.
Oh! quem nunca buscara alegria transitória!
Oh! quem cortara por todo o vão cuidado, e somente tratara das coisas salutares e divinas, e pusera Deus em toda a sua esperança: que paz e descanso lograria!

5. Ninguém é digno de consolação celeste, senão quem se exercita com diligência na santa compunção.
Se queres arrepender-te do coração, entra no teu retiro, lança fora todo o cuidado do mundo segundo está escrito: compungi-vos nos vossos retiros (Ps.4,5).
Na cela acharás o que muitas vezes perdes por fora.
A cela continuada causa doçura e pouco frequentada gera enfado.
Se no princípio da tua conversão te acostumares a ela e a guardares bem, ser-te-á depois companheira amorosa e consolação suave.

6. No silêncio e sossego aproveita uma alma devota, e aprende os segredos da Escritura.
Aí acha torrentes de lágrimas, com que todas as noites se lave e purifique, para que tanto mais familiarmente se una ao seu Criador, quanto mais retirada vive dos reboliços do mundo.
Aquele pois que estiver mais longe de seus amigos e conhecidos, estará mais perto de Deus e dos seus anjos.
Melhor é estar escondido, e ter cuidado consigo que, não tratando de si, obrar prodígios.
É mui louvável a um homem religioso sair fora raras vezes, e fugir de ver e ser visto.

7. Para que queres ver o que te não é lícito possuir?
Passa o mundo e a sua concupiscência (1.João, 11, 14).
Os desejos da sensualidades arrastam-nos a passatempos; mas decorrida aquela hora, que nos fica senão peso na consciência e distraimento no coração?
A saída alegre faz muitas vezes a volta triste: e a vigília da tarde alegra causa de manhã tristeza.
E deste modo todo o gosto carnal entra com brandura, mas por fim atormenta e mata.
Que podes ver noutra parte, que aqui não vejas?
Daqui vês o Céu e a terra e todos os elementos, e destes foram feitas todas as coisas.

8. Que podes ver algures que permaneça muito tempo debaixo do sol?
Cuidas satisfazer completamente o teu apetite?
Pois não o conseguirás.
Se visses diante de ti todas as coisas, que seria isso, senão uma visão fantástica?
Levanta os teus olhos a Deus nas alturas, e pede-lhe perdão dos teus pecados e negligências.
Deixa a vaidade para os vaidosos, e atende só aos preceitos de Deus.
Fecha atrás de ti a porta da tua cela, e chama o teu amado Jesus.
Está com Ele aí, porque nem acharás noutra parte tanta paz.
Se não saíras fora, nem ouviras novidades, melhor permaneceres em boa paz; já que folgas de ouvir algumas curiosidades, prepara-te para sofrer, que te afligirão o coração.


Nota: Costumam geralmente os homens obrar antes por inclinação que por virtude: uns amam a solidão, outros o bulício, conforme o seu gosto. O cristão, porém, e muito mais o religioso necessita de atender ao dever e não ao prazer. Há ocasiões em que se deve buscar o retiro, há outras em que se deve aparecer no povoado. Jesus Cristo nem sempre se acolheu ao deserto, nem sempre se escondeu no retiro.
S. Paulo, primeiro eremita, Santo Antão e muitos outros fugiram do mundo para os desertos, onde se santificaram em vida contemplativa, obedecendo assim à inspiração que os chamava, e condenando com o seu exemplo a corrupção das grandes cidades. Cada época tem o seu carácter e cada indivíduo a sua missão especial, no plano da Providência.
Todos nós necessitamos de retiro e devemos procurá-lo, de quando, em quando, qualquer que seja o nosso estado ou profissão. Mas isto não quer dizer que seja necessário fugir do povoado para o deserto. Podemos consagrar alguns momentos cada dia, algum dia de cada mês, alguns dias cada ano a examinar e purificar a nossa consciência, a dar balanço à nossa vida, para vermos em que altura vai o negócio da nossa salvação.
Envolvidos nos negócios do mundo, olhamos mais para fora do que para dentro de nós, e quase nos esquecemos da viagem que estamos fazendo para a sepultura. Como remediar esta fraqueza? isolando-nos do mundo, por intervalos, sem sairmos do mesmo mundo: recolhendo-nos dentro de nós mesmos. - Eis que me afastei pela fuga e permaneci na solidão (Ps. 54, 8).
Muitos são os perigos que me rodeiam, meu Deus, muitos são os inimigos que me combatem, mas confio no vosso auxílio e espero ser fiel às vossas inspirações . Ajudai-me, Senhor, para que não me esqueça jamais de vós no meio das agitações da vida.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Capítulo XIX. Do exercício dos bons religiosos.

 1. A vida do bom religioso deve resplandecer em todas as virtudes, para que seja tal no interior, qual pareça de fora aos homens; e com razão deve ser muito melhor no interior, do que exteriormente se manifesta, porque nos está vendo Deus Nosso Senhor, a quem devemos respeitar sumamente, em qualquer lugar onde estivermos, e devemos andar na sua presença puros como os anjos.
Cada dia devemos renovar o nosso propósito, excitar-nos a maior fervor, como se este fora o primeiro dia da nossa conversão e dizer: ajudai-me, Senhor meu, em meu bom intento e em vosso santo serviço, e dai-me graça para que comece hoje perfeitamente, pois é nada tudo o que até aqui tenho feito.

2. À medida do nosso propósito crescerá o nosso aproveitamento; e o que deseja aproveitar bem, necessita de muito cuidado.
Porque, se o que firmemente propõe, muitas vezes falta, que será do que propõe raras vezes e sem firmeza?
De vários modos sucede deixarmos o nosso propósito, e raras vezes passa sem dano uma leve omissão de nossos exercícios.
O bom propósito, dos varões justos, mais se funda na graça de Deus, que na sua própria sabedoria, e nele confiam sempre em qualquer obra que empreendam.
Porque o homem propõe, mas Deus dispõe, e não está na mão do homem o seu caminho.

3. Se se deixa alguma vez o exercício costumado, por causa de piedade ou do proveito do próximo, depois se pode reparar facilmente; mas, se por enfado ou negligência se larga facilmente, isso é mui culpável, e sentir-se-á como nocivo.
Esforcemo-nos quanto pudermos, pois ainda assim caímos facilmente em muitas faltas.
Sempre devemos propor a reforma de alguma coisa determinada, principalmente daquelas que mais nos impedem.
Devemos examinar e ordenar todas as nossas coisas exteriores e interiores, porque tudo importa para o nosso aproveitamento.

4. Se te não podes recolher continuamente, recolhe-te pelo menos uma vez no dia, de manhã ou à noite.
Pela manhã propõe e à noite examina tuas acções; como te houveste hoje nas palavras, nas obras e nos pensamentos; porque pode ser que nisto ofendesses muitas vezes a Deus e ao próximo.
Arma-te como varão forte contra as malícias do demónio.
Refreia a gula, e mais facilmente refrearás toda a inclinação da carne.
Nunca estejas de todo ocioso, mas lê ou escreve, ou reza, medita, ou faze alguma coisa de proveito para os outros.
Porém os exercícios corporais hão-de tomar-se com discernimento, porque não servem igualmente para todos.

5. Os exercícios particulares não se devem fazer publicamente, porque são mais seguros em secreto. Guarda-te de seres mais pronto para o particular, que para o comum; mas satisfeitas inteira e fielmente as coisas de obrigação e preceito, se tiveres algum tempo, emprega-o em particular, conforme pedir a tua devoção.
Não podem todos ocupar-se no mesmo exercício; mas um convém mais a este, outro àquele.
Também conforme a oportunidade, assim agradam os diversos exercícios; porque uns são mais acomodados para o dia de festa, outros para o tempo de paz e sossego.
Numas coisas gostamos de meditar, quando estamos tristes, e noutras quando estamos alegres e consolados no Senhor.

6. Nas festas principais havemos de renovar os nossos bons exercícios, e implorar mais fervorosamente a intercessão dos santos.
De uma festa a outra, devemos propor alguma coisa, como se então houvéssemos de sair deste mundo e chegar à festividade eterna.
Por isso devemos preparar-nos com cuidado nos tempos de devoção, e andar com maior atenção, e guardar toda a observância com muito cuidado, como se em breve houvéssemos de receber de Deus o prémio do nosso trabalho.

7. E se ele se dilatar, creiamos que não estamos preparados, e que ainda somos indignos dessa glória, que se manifestará em nós acabado o tempo da vida.
E cuidemos de nos dispor para a morte.
Bem-aventurado o servo, diz o evangelista S. Lucas, a quem o Senhor, quando vier, achar vigiando.
Em verdade vos digo que o constituirá sobre todos os seus bens (S.Luc. 12, 37).


Nota: Quando Deus nos chama a um estado qualquer, sempre nos concede as graças necessárias para bem nos desempenharmos das obrigações que contraímos.
O religioso consagra-se a Deus dum modo particular; deve por isso ter uma vida angélica. São os anjos por natureza as criaturas mais próximas de Deus (depois da Santíssima Virgem; que é superior aos anjos por privilégio); devem ser as pessoas religiosas mui próximas dos anjos, por vocação. À predilecção com que Deus as escolheu, devem elas corresponder com escrupulosa fidelidade, de maneira que cada uma possa dizer: não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.
Há duas espécies de exercícios que o religioso tem a desempenhar: uns externos, prescritos pela regra particular de cada ordem; outros internos que se podem dizer comuns a todas as ordens: A necessidade instante de lutar continuamente contra os inimigos da alma, o desejo sincero e sempre crescente de corrigir todos os defeitos e adquirir todas as virtudes, são exercícios interiores. A paixão pela ciência faz os grandes sábios, a paixão pela virtude faz os grandes santos.
Uma virtude que assentasse apenas em actos exteriores, merecia o nome de impostura. Não é a cor nem o feitio do hábito que formam o bom religioso, mas sim a recta intenção e o fogo sagrado do puro amor, que devem animar todas as suas acções. O exercício fundamental do bom religioso consiste em regular com cuidado no interior o que há-de manifestar no exterior: a discrição nas palavras, a perfeição nas obras, a modéstia, a gravidade, tudo enfim deve revelar a pureza do coração. Se as palavras e as obras se mostram desafinadas, é porque falta o equilíbrio interior.
Perdoai-me, Senhor, as minhas infidelidades, pela vossa infinita misericórdia, e fazei-me tal qual desejais que seja.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Capítulo XVIII. Dos exemplos dos Santos Padres.

 1. Pondera bem os heróicos exemplos dos Santos Padres, nos quais resplandeceu a verdadeira perfeição e religião, e verás que pouco e quase nada é tudo quanto fazemos.
Ai de nós!
Que é a nossa vida, se se comparar com a sua?
Santos e amigos de Cristo, eles serviram ao Senhor em fome e sêde, em frio e nudez, em trabalho e fadiga, em vigílias e jejuns, em orações e meditações santas, em perseguições e muitos opróbrios.

2. Oh! quantas e quão graves tribulações padeceram os Apóstolos, os Mártires, os Confessores, as Virgens, e todos os mais que quiseram seguir as pisadas de Cristo!
Pois aborreceram suas vidas neste mundo, para as possuirem eternamente no outro.
Oh! que estreita e retirada vida passaram os Santos Padres no êrmo!
Que contínuas e graves tentações padeceram!
Quão frequentemente foram atormentados do inimigo!
Que contínuas e fervorosas orações ofereceram a Deus!
Que duras e ásperas abstinências fizeram!
Que grande zelo e fervor tiveram em seu aproveitamento espiritual!
Que fortes pelejas feriram para sopear os vícios!
Que pura e recta intenção tiveram em Deus!
De dia trabalhavam e passavam as noites em oração, ainda que trabalhando não interrompiam a sua oração mental.

3. Todo o tempo gastavam bem.
As horas lhe pareciam breves para se darem a Deus: e pela grande doçura da contemplação, descuidavam-se ainda da necessária refeição do corpo.
Renunciavam a todas as riquezas, dignidades, honras, amigos e parentes: nenhuma coisa queriam do mundo, apenas tomavam dele o necessário para a vida; custava-lhes servir o corpo ainda nas coisas necessárias.
De maneira que eram pobres das coisas da terra, mas riquíssimos de graça e virtudes.
De fora em necessitados, mas interiormente estavam abundantes de graça e consolações divinas.

4. Eram estranhos para o mundo, mas íntimos e particulares amigos de Deus.
Tinham-se a si mesmos por nada, e o mundo os tratava com desprezo, mas eram dignos de estima e amor aos olhos de Deus; estavam em verdadeira humildade, viviam em simples obediência, andavam em caridade e paciência, e por isso cada dia aproveitavam no espírito e alcançavam diante de Deus muitas graças.
Foram dados para exemplo a todos os religiosos: e mais nos devem incitar para aproveitarmos no bem, que a multidão dos tíbios para afrouxarmos nos nossos exercícios.

5. Oh! que grande foi o fervor de todos os religiosos no princípio dos seus sagrados institutos!
Quanto amor à oração, quanto zelo da virtude, que pontual observância, que humilde respeito e obediência aos preceitos dos seus mestres florescia geralmente em todos!
Os vestígios que ficaram ainda agora dão testemunho de que foram varões verdadeiramente santos e perfeitos, que, pelejando tão valorosamente, atropelaram o mundo.
Agora já se tem em muita estima o que não quebranta a regra, e com paciência pode suportar algum dissabor.

6. Ó tibieza e descuido do nosso estado! É possível que tão depressa descaíssemos do antigo fervor, e já nos dê enfado essa mesma vida por nossa frouxidão e tibieza!
Praza a Deus que de todo não se acabe em ti o desejo de aproveitar nas virtudes, pois viste muitas vezes tantos exemplos de varões tão devotos.


Nota: Tem grande influência sobre nós os exemplos: por miséria nossa, porém, vemos os bons e não os seguimos, vemos os maus e deixamo-nos arrastar por eles! Mostra-te exemplar de boas obras em tudo, em doutrina, em integridade, em gravidade (a Tito, 2, 8).
Muitas vezes até queremos diminuir a responsabilidade das nossas culpas, apontando as alheias e dizendo com orgulho: os outros também assim procedem: temos muitos companheiros. Que desculpa tão insensata! Então deixará um pecado de ser pecado só porque muitos o cometem? Se os pecadores se multiplicam, mais é para temer que a justiça de Deus se apresse a cair sobre os pecadores.
Eleva o teu pensamento ao Céu, e contempla os bem-aventurados que ali gozam da felicidade eterna. Eram filhos de Adão e Eva, como tu; tinham paixões a vencer, inimigos a repelir, dificuldades a superar. Ali encontras modelos para todos os estados e condições: casados, solteiros, viúvos, eclesiásticos, leigos, religiosos, servos... Muitos, que primeiro tinham sido grandes pecadores, tornaram-se depois grandes penitentes, e hoje são honrados nos nossos altares.
Nem tudo o que se encontra nas vidas dos santos deve ser imitado: mas muito te convém conhecer e ter diante dos olhos a vida de algum servo ou serva de Deus, que se haja santificado no mesmo estado em que tu presentemente te achas. És casado? Olha para um esposo modelo. És mãe? Contempla a vida de uma mãe exemplar. És sacerdote? Lê com frequência a vida de um santo sacerdote, etc.
Livrai-me, meu Deus , dos maus exemplos e dai-me força para seguir os bons.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Capítulo XVII. Da vida religiosa.

 1. Convém que aprendas a vencer-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.
Não é pouco habitar nos mosteiros ou em congregações, viver nelas sem queixas e perseverar fiel até à morte.
Bem-aventurado aquele que aí vive bem e ditosamente acaba.
Se queres devidamente perseverar e aproveitar, considera-te como desterrado e peregrino sobre a terra.
Convém que te faças louco por amor de Cristo, se queres seguir a vida religiosa.

2. Pouco aproveita o hábito e a tonsura; mas a mudança de costumes e a perfeita mortificação das paixões fazem o homem verdadeiro religioso; aquele que busca outra coisa mais que a Deus puramente, e a salvação da sua alma, achará só dor e tribulação.
Não pode estar muito tempo em paz, quem não procura ser o menor e o mais sujeito de todos.

3. Vieste para servir, não para governar; sabe que foste chamado para te exercitar em trabalho e sofrimento, e não para gastar o tempo em apetites e ociosidades.
Aqui finalmente se provam os homens, como na fornalha o ouro.
Aqui ninguém pode estar, senão quem de todo o coração se quiser humilhar, por amor de Deus.


Nota: Boa é a vida monástica para quem sabe praticá-la conforme a vontade de Deus. Nem todos são chamados a ela, e nem todos os que nela se encontram a compreendem sempre, como devem. Deixar bens, parentes, amigos, e comodidades para abraçar a vida religiosa é sem dúvida um grande sacrifício; mas não é um sacrifício completo, conforme um religioso ou religiosa devem fazê-lo.
De pouco vale darmos a Deus o que é nosso, se não nos damos nós mesmos a Ele por completo, sacrificando-lhe a nossa vontade e entregando-lhe o nosso coração. Não imagines que a santificação é a obra de um dia e que dentro das paredes dum mosteiro tudo há-de correr à medida dos teus desejos. Também lá terás que sofrer a guerra das tuas paixões, os defeitos do teu temperamento e os ataques dos teus inimigos. Todos fomos criados por Deus e para Deus; contudo os caminhos por onde se deve ir para Deus são diferentes.
De todas as pessoas que povoam o mundo não encontras duas que sejam inteiramente iguais em feições, gostos, faculdades, propensões, etc. Diversas são também as vocações e cada um deve procurar saber qual é a sua. O melhor estado que podes escolher é aquele a que Deus te chama: estarás bem em qualquer lugar, se nele estiveres por ordem de Deus. Estuda portanto a tua vocação, pede a Deus que te alumie com a sua graça, e procura um director virtuoso, sábio, prudente e experimentado.
Meu Deus, eu quero ser vosso, custe o que custar. Ensinai-me com a vossa sabedoria, e dirigi-me com a vossa Providência, para não me afaste jamais do recto caminho que devo trilhar. Não quero, Senhor, fazer a minha vontade, mas sim que a vossa se faça em mim agora e sempre.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Capítulo XVI. Como se devem levar com paciência os defeitos do nosso próximo.

 1. O que um homem não pode emendar em si ou nos outros, deve sofrê-lo com paciência, até que Deus disponha de outro modo.
Considera que assim convém para tua prova e paciência, sem a qual não são dignos de grande estima os nossos merecimentos.
Deves porém pedir a Deus que te auxilie, para que possas com suavidade levar semelhantes estorvos.

2. Se algum sendo uma ou duas vezes admoestado se não emendar, não porfies com ele, mas encomenda tudo a Deus, para que se faça a sua vontade, e seja honrada em todos os seus servos, pois sabe tirar bens dos males.
Procura sofre com paciência quaisquer defeitos e fraquezas alheias, pois tens também muito que te sofram os outros.
Se não podes fazer-te a ti tal e qual desejas ser, como queres os outros à medida do teu desejo?
De boa vontade queremos os outros perfeitos, e não acabamos de emendar os defeitos próprios.

3. Queremos que os outros sejam rigorosamente castigados, e não queremos ser repreendidos.
Parece-nos mal que se concedam aos outros largas licenças, e não queremos que se nos negue o que pedimos.
Queremos que os outros sejam apertados com estatutos, e de nenhuma maneira sofremos que nos reprimam.
Donde claramente se mostra quão poucas vezes amamos o próximo como a nós mesmos: se todos fôssemos perfeitos, que teríamos então que sofrer aos outros por amor de Deus?

4. Mas assim o dispôs Deus, para que aprendamos a desculpar as faltas dos outros (Gal. 6, 2); porque ninguém há sem defeito, sem carga; ninguém suficiente, nem cabalmente sábio para si; mas convém que uns aos outros nos soframos e consolemos, e reciprocamente nos ajudemos com instruções e advertências.
De quanta virtude cada um é, melhor se manifesta na ocasião da adversidade, porque as ocasiões não fazem o homem fraco, mas descobrem o que ele é.


Nota: O preceito que nos manda amar o próximo, como a nós mesmos, impõe-nos também o dever de sofrermos os seus defeitos. Vale mais o homem paciente do que o forte (Prov. 16, 32). É-vos necessária a paciência para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a promessa (Hebr. 10, 36).
Quando a caridade é fervorosa todos os sofrimentos se tornam leves. A cada passo dizemos: Perdoai-nos, Senhor, as nossas ofensas; como nós perdoamos aos que nos têm ofendido. Estamos assim a recordar a condição que temos a cumprir para alcançarmos a misericórdia divina: devemos sofrer os defeitos do nosso próximo para que Deus sofra os nossos.
Isto porém não quer dizer que os pais devam desculpar as faltas de seus filhos, ou que os superiores e as autoridades deixem de punir os delinquentes, que dependem da sua jurisdição. Todos nós temos deveres a cumprir para com o nosso próximo; mas nem todos temos iguais deveres. É portanto necessário que cada um atenda sèriamente às circunstâncias particulares em que se encontra, e procure regular as suas acções segundo os ditames da prudência cristã.
Uma virtude imprudente deixa de ser virtude. Se és inferior e reconheces defeitos nos teus superiores, conserva-te respeitoso, sofre com resignação e conforta-te com a a lembrança dos teus próprios defeitos, com o fruto que podes tirar dos defeitos alheios, sofrendo-os; e, enfim, lança os olhos para o prémio que Deus te promete. Podes pela paciência converter em bens próprios os defeitos do teu próximo. Se és superior, trabalha com boa vontade, na medida das tuas forças, e Deus abençoará as tuas fadigas. Ninguém é obrigado a mais do que pode.
Meu Jesus e meu Senhor, é na meditação da vossa vida que devo aprender a levar com paciência as faltas e fraquezas  de meus irmãos; sêde, Senhor, daqui para o futuro o meu Mestre, ensinai-me a caminhar pelos sofrimentos do tempo para os gozos da eternidade.

domingo, 7 de novembro de 2021

Capítulo XV. Das obras que procedem da caridade.

1. Por nenhuma coisa do mundo, nem por nenhuma afeição humana, se deve fazer mal algum; mas, para proveito de algum necessitado, se pode algumas vezes interromper uma obra boa, ou trocar-se por outra melhor; e assim não se perde essa mas comuta-se com vantagem.
A obra exterior sem caridade, nada aproveita; mas tudo o que se faz por caridade, pouco que seja, é frutuoso, porque mais olha Deus para o afecto com que obramos, do que para a obra.

2. Muito obra quem muito ama.
Muito faz quem tudo faz bem.
Bem obra quem serve mais ao bem comum, que à sua própria vontade.
Muitas vezes parece caridade o que é amor próprio; porque a propensão carnal da nossa natureza, a nossa vontade própria, a esperança da paga, e o desejo da nossa comodidade, mui poucas vezes nos deixam.

3. Quem tem verdadeira e perfeita caridade, em nenhuma coisa se busca a si mesmo, mas só deseja que todas se façam para glória de Deus.
A ninguém tem inveja, porque não ama particularmente nenhum gosto; mas deseja sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus.
A ninguém atribui nenhum bem, mas refere-o todo a Deus, do qual derivam primàriamente todas as coisas; no qual, como em fim último, descansam com sumo gozo todos os santos.
Oh! quem tivera uma faísca da verdadeira caridade!
Certo que esse avaliaria por vaidade todas as coisas da terra.


Nota: A alma das nossas acções está na boa intenção com que as praticamos. À semelhança das plantas que escondem na terra a raiz e só mostram à nossa vista o tronco e a ramagem, assim as nossas acções deixam uma parte oculta no interior e revelam outra no exterior. A árvore cuja raiz está seca não pode produzir fruto; a acção aparentemente boa, mas que não foi praticada com intenção recta, não pode ser meritória. As exterioridades podem enganar os homens; Deus que perscruta os corações não se deixa iludir.
Dum coração puro nascem obras santas; de uma intenção viciada nascem acções pecaminosas ou estéreis. Se repartes esmolas aos indigentes, praticas assim boas obras; mas se essas obras não são animadas pela caridade, se o único fim que te propões é conseguir o louvor humano - trabalhas sem fruto, essas obras são estéreis. Mais, se socorreste o pobre com um fim pecaminoso, tornaste-te réu de um crime.
Ao contrário, se te compadeces interiormente da miséria do pobre, e no teu coração estás disposto a socorrê-lo, embora não tenhas meios para isso, nesse caso a tua intenção é recta e Deus há-de recompensar a tua boa vontade.
podes ser muito rico de caridade para com o teu próximo, ainda mesmo que sejas pobre de haveres. Purifica com frequência a tua intenção e examina as tuas acções, para que te não iludas, tomando as aparências da virtude pela mesma virtude.
Meu Deus, tudo é patente aos vossos olhos: vedes os meus pensamentos mais secretos, ouvis as minhas palavras, e presenciais as minhas obras. Sois agora testemunha e sereis também um dia juiz de todos os meus pensamentos, palavras e acções.
Rogo-vos, pois, que me assistais em todos os momentos da minha vida, para que eu sempre seja fiel aos vossos preceitos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Capítulo XIV. Que se devem evitar os juízos temerários.

 1. Põe os olhos em ti mesmo, guarda-te de julgar as obras dos outros.
Julgar os outros é ocupação vã para o homem, que de ordinário se engana e facilmente peca; mas julgando-se, examinando-se a si mesmo, sempre proveitosamente trabalha.
Conforme as coisas nos agradam, assim com frequência as julgamos; pois por nosso amor próprio perdemos facilmente o verdadeiro juízo delas.
Se Deus fora sempre o fim puro de nossos desejos, não nos perturbaria tão facilmente a contradição da nossa sensualidade.

2. Muitas vezes temos dentro de nós escondida, ou de fora nos ocorre alguma coisa, cuja afeição nos leva atrás de si.
Muitos buscam secretamente o seu próprio interesse nas coisas que fazem e não reflectem nisso.
parece-lhes que estão em paz, quando lhes sucedem as coisas conforme o seu querer e sentir, mas, se se fazem de maneira diferente da que desejavam, logo se inquietam e entristecem.
Pela diversidade de pareceres e opiniões, muitas vezes se levantam discórdias entre amigos e vizinhos, entre religiosos e devotos.

3. Dificilmente se perde o costume inveterado, e ninguém deixa de boa vontade o seu próprio parecer.
Se confiares mais na tua razão e indústria, que na virtude da sujeição a Jesus Cristo, poucas vezes e tarde serás ilustrado; porque Deus quer que perfeitamente nos sujeitemos a Ele, e que transcendamos toda a humana razão, inflamados no seu amor.


Nota: Por fraqueza nossa, quando se trata de culpas e defeitos, vemos melhor ao longe do que ao perto; os defeitos dos nossos irmãos estão longe e vemo-los; os nossos estão mais perto, - estão em nós mesmos, - e não os vemos, ou vemo-los muito mal. Por isso nos sentimos inclinados a pensar e falar pouco favoravelmente dos nossos irmãos; queremos toda a indulgência para os defeitos próprios, e todo o rigor da justiça para os alheios.
Com referência, pois, à disposição do nosso espírito, para com o próximo, podemos distinguir quatro estados: dúvida, suspeita, opinião e juízo.
Dúvida temerária - é o estado em que o nosso espírito, sem fundamento razoável fica suspenso, nada afirmando nem negando de bom a respeito do próximo. Suspeita temerária - é o estado em que o nosso espírito, sem motivo razoável, se inclina a pensar mal do próximo. Opinião temerária - é o estado em que o nosso espírito julga mal do próximo, mas com alguma receio de errar.
Finalmente, juízo temerário - é o estado em que o nosso espírito, sem motivo suficiente, julga mal do próximo, com assentimento seguro e certo. Este pode chegar a ser culpa mortal. Se olharmos a sério para a nossa consciência, muito encontraremos que nos censurar e corrigir. Ora, a caridade bem ordenada deve começar por nós; senão emendamos os nossos defeitos, porque motivo nos preocupamos com os alheios?
A caridade não pensa mal (1. Cor.). Sede misericordiosos assim como o vosso Pai é misericordioso (S. Luc. 6, 36). Não pode negar a misericórdia a seus irmãos quem necessita dela para si: se queremos que Deus seja indulgente para connosco, justo é que sejamos também indulgentes para com o próximo.
Meu Deus, que sois todo amor, inflamai o meu coração nas doces chamas da caridade, derretei o gelo que o domina, e fazei que eu ame cada vez mais o meu próximo por amor de Vós.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Capítulo XIII. Como se há-de resistir às tentações.

 1. Enquanto vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações, pois está escrito em Job: tentação é a vida do homem sobre a terra (Job, 7, 1).
Por isso deve cada um ser cuidados nas tentações e mui vigilante na oração; para que o demónio, que nunca dorme, não ache lugar para seu engano, ele que por todas as vias busca vítimas (1Ped. 5, 8).
Ninguém há tão perfeito e santo que não padeça algumas vezes tentações, e finalmente não podemos viver sem elas.

2. São contudo as tentações muitas vezes utilíssimas ao homem, posto que lhe sejam molestas e pesadas; porque com elas se humilha, purifica e instrui.
Todos os santos passaram por muitas tribulações e tentações, e com elas aproveitaram: e os que não as puderam levar tornaram-se réprobos e pereceram.
Não há ordem tão santa, nem lugar tão secreto, onde se não achem tentações e adversidades.

3. Nenhum homem está de todo livre das tentações enquanto vive; porque em nós mesmos está o princípio donde procedem, pois nascemos com inclinação para o pecado.
Mal uma tentação ou tribulação é passada, já sobrevem outra, e sempre teremos que padecer, pois perdemos o bem da nossa felicidade.
Muitos pretendem fugir às tentações e caem nelas mais gravemente.
Não as podemos vencer com lhes fugir sòmente; mas com paciência e verdadeira humildade nos fazemos mais fortes que todos os nossos inimigos.

4. O que sòmente modera as aparências e não arranca as raízes, pouco aproveitará: antes lhe tornarão depressa as tentações e se achará pior.
melhor as vencerás com o favor divino, pouco a pouco, com paciência e longanimidade, que com importuna contenda.
Toma muitas vezes conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero com o que está tentado; mas trata de o consolar, como desejaras ser consolado.

5. A inconstância de ânimo e pouca confiança em Deus é o princípio de todas as tentações.
Porque assim como as ondas lançam duma parte para a outra a nau a que falta o leme, assim as tentações combatem de diversos modos o homem descuidado e inconstante em seu propósito.
O fogo prova o ferro e a tentação o justo.
Muitas vezes ignoramos o que podemos, mas a tentação nos mostra o que somos.
Devemos porém vigiar principalmente no princípio da tentação; porque então mais facilmente se vencerá o inimigo, se não consentirmos que entre as portas da nossa alma, mas logo que bater a elas lhe sairmos ao encontro.
Donde veio a dizer alguém: resiste ao princípio; porque vem fora do tempo o remédio, quando os males tem cobrado forças com as detenças (Ovid. De Remed. 1, v. 91).
Pois primeiramente se oferece à alma um simples pensamento, depois a importuna imaginação, logo a deleitação, e o movimento torpe, e, finalmente o consentimento: e assim pouco a pouco entra de todo o malvado inimigo, porque se não lhe resistiu no princípio.
E quanto mais tempo alguém se descuidar em lhe resistir, tanto se tornará cada dia mais fraco e o inimigo contra ele mais poderoso.

6. Alguns padecem graves tentações no princípio da sua conversão, outros no fim e muitos por quase toda a vida.
Alguns são tentados brandamente, e conforme a sabedoria e a equidade da Providência divina, que pondera o estado e o merecimente dos homens, e tudo ordena para salvação dos seus escolhidos.

7. Por isso, não devemos desesperar, quando estamos tentados, mas antes com mais fervor pedir a Deus que se digne a ajudar-nos em toda a tribulação, e como diz S. Paulo: Ele fará que tiremos da mesma tentação tal força, que a possamos levar com paciência (1. Cor. 16, 13).
Humilhemos pois a nossa alma debaixo da mão de Deus, em toda a tentação e tribulação, porque ele há-de salvar e engrandecer os humildes de espírito.

8. Nas tentações e tribulações se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas se colhe maior merecimento e se conhece melhor a virtude.
Não é muito um homem ser devoto e fervoroso, quando não sente pesar; mas se no tempo da adversidade sofre com paciência, dá esperanças de grande aproveitamento.
Alguns há que vencem as grande tentações e muitas vezes das ordinárias e pequenas são vencidos, para que humilhando-se não confiem em si mesmos nas coisas grandes, pois que sucumbem nas pequenas.


Nota: A tentação é um incitamento da vontade para o mal. Não é pecado sentir tentações, quando o senti-las não dependeu do nosso querer. Neste caso, os actos de sensibilidade, operam-se nós e não por nossa culpa. Ninguém peca contra a sua vontade. Podem representar-se à tua imaginação os pecados mais repelentes, podes sentir as tentações mais violentas: se a tua vontade não quer o pecado nem os meios que a ele conduzem, não pecas.
Nenhuma tentação há que não possas vencer com a graça de Deus, que está sempre à tua disposição: Fiel é o Senhor e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças; mas enviará juntamente com a tentação o seu auxílio, para que possais resistir (1. Cor. 10, 13). Que doutrina tão consoladora.
Permitiu Jesus Cristo ser tentado no deserto, por diversos modos, quando estava entregue ao jejum e à oração para nós não estranhássemos ser tentados, em qualquer lugar. Nenhuma pessoa há tão privilegiada que esteja isenta de tentações, em algum período da vida, ou em algum lugar do mundo; sempre e em toda a parte podemos ser tentados.
Conforme o seu temperamento, estado condição e meio em que vive, assim cada pessoa é tentada de diversos modos. Permitindo-nos as tentações, oferece-nos Deus ocasião propícia para nos enriquecer de merecimentos a cada instante. Porque tu eras querido de Deus, dizia o anjo Rafael a Tobias, foi necessário, que a tentação te experimentasse (Tob. 12, 13). São diversas as tentações, mas os remédios que Jesus Cristo nos aponta para elas reduzem-se a dois: vigiai e orai para que não entreis em tentação. A vigilância contínua avisa-nos dos perigos; a oração bem feita consegue-nos a força necessária para resistirmos aos inimigos.
Compadecei-vos de mim, Senhor, segundo a vossa grande misericórdia (Ps. 50).

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Capítulo XII. Do proveito das adversidades.

1. Bom é que padeçamos algumas adversidades e contradições, que muitas vezes fazem recolher o homem dentro do seu coração, para que, conhecendo que vive em desterro, não ponha a sua esperança em coisa alguma do mundo.
Bom é que nos molestem algumas vezes com contradições, e que sintam de nós mal e imperfeitamente os homens, ainda que obremos bem e tenhamos boa intenção.
Estas coisas ordinariamente nos ajudam a ser humildes, e nos defendem da vanglória; e então buscamos melhor a Deus por testemunha da nossa consciência, quando de fora perdemos para com os homens a estima e o crédito.

2. Por isso devia o homem segurar-se de tal sorte em Deus, que lhe não fosse necessário buscar muitas consolações humanas.
Quando o homem de boa vontade é atribulado, tentado ou combatido de maus pensamentos, então conhece que tem maior necessidade de Deus; pois por experiência se convence de que sem Ele não pode obrar coisa alguma boa.
Então se entristece, geme e ora pelas misérias que padece.
Então sente que se lhe dilata a vida, e deseja que se lhe apresse a morte, para se ver desatado do corpo e estar unido com Cristo; e conhece que a perfeita segurança e inteira paz se não pode achar no mundo.


Nota: Quem não aprende de Jesus Cristo a sofrer com resignação não é verdadeiro católico: quem não recebe a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (S.Mat. 10, 38). Desde a lapinha de Belém, até ao sacrifício cruento do Gólgota, sempre Jesus Cristo nos pregou o sofrimento, primeiro com o exemplo e depois também com a palavra.
Viver é sofrer: por mais confortos que procures, não consegues esquivar-te à lei do sofrimento. Sofrem os ricos e os pobres, os imperantes e os vassalos, os sábios e os ignorantes, os justos e os pecadores. Quem mais sofre é quem não sofre com paciência. O bom e o mau ladrão ambos sofreram o suplício da cruz, mas com resultados opostos: o mau perdeu-se, porque não converteu a cruz em meio de salvação. Grande ciência é a que ensina a sofrer com fruto!
Os sofrimentos enobrecem a quem sabe levá-los com resignação.
O mundo oferece flores e dá espinhos; Jesus Cristo porém não pode faltar às suas promessas. Se sofremos enfermidades no corpo ou aflições no espírito, obedeçamos de pronto ao amoroso convite que Jesus nos faz. Na mesma medida em que aumentarmos a paciência, diminuiremos o sofrimento. Qual é o amigo verdadeiro que se recusa a sofrer pelo seu amigo! Se amas a Deus, nenhuma dúvida deves ter em sofrer pelo amor dele e em teu próprio benefício.
Divino Verbo, que baixastes do Céu à terra e incarnastes no seio imaculado da Virgem Maria, para nos resgatardes da culpa, a preço do vosso próprio sangue e de uma morte ignominiosa: ensinai-nos a compreender o valor dos sofrimentos e ajudai-nos a levar com resignação a nossa cruz.


Capítulo XI. Como se deve adquirir a paz, e do zelo de aproveitar.

1. Muita paz poderíamos ter, se nos não quiséssemos meter nas palavras e obras dos outros, que não pertencem ao nosso cuidado.
Como pode estar em paz muito tempo quem se intromete em cuidados alheios, e busca ocasiões exteriores, e dentro de si mesmo poucas ou raras vezes se recolhe? Bem-aventurados os simples, que terão muita paz.

2. Qual a causa por que muitos dos santos foram tão perfeitos e tão contemplativos? Porque trataram de se mortificar totalmente em todos os desejos terrenos; e por isso puderam no íntimo do seu coração unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos.
Nós outros, ocupamo-nos demasiado das próprias paixões, e anelamos as coisas que passam.
Poucas vezes vencemos perfeitamente um vício: no nosso aproveitamento, e por isso permanecemos frouxos e tíbios.

3. Se estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos, e interiormente desembaraçados, então poderíamos gostar das coisas divinas, e experimentar alguma coisa da contemplação celeste.
O maior impedimento é que não estamos livres das nossas inclinações e desejos, nem trabalhamos por entrar no caminho perfeito dos santos.
Quando alguma pequena adversidade nos sucede, mui depressa nos desalentamos e buscamos humanas consolações.

4. Se nos esforçássemos em perseverar na batalha, como varões fortes, veríamos sem dúvida o socorro de Deus descer do Céu sobre nós.
Porque Deus está sempre disposto a ajudar os que pelejam e esperam na sua graça, e nos procura as ocasiões da peleja, para que logremos a vitória.
Se somente nas observâncias exteriores pusermos o aproveitamento da vida religiosa, mui depressa acabará a nossa devoção.
Ponhamos pois o machado à raiz da árvore para que livres das paixões possamos pacificar nossas almas.

5. Se cada ano desarreigássemos um vício, depressa seríamos perfeitos.
Mas agora, pelo contrário, muitas vezes reconhecemos ter sido melhores e mais puros no princípio da nossa conversão, que depois de muitos anos de profissão.
O nosso fervor e aproveitamento cada dia devera crescer, mas agora tem-se por muito conservar alguma parte do fervor primitivo.
Se no princípio empregáramos alguma violência, poderíamos depois fazer tudo com gosto e facilidade.

6. Difícil é deixar os costumes antigos; porém mais difícil é ir contra a própria vontade.
Mas, se não vences as coisas pequenas e fáceis, como vencerás as dificultosas?
Resiste no princípio à tua inclinação e deixa o mau costume, para que te não meta pouco a pouco em maior dificuldade.
Oh! se considerasses de quanta paz seria para ti e de quanta alegria para os outros viveres bem!
Eu entendo que então serias mais cuidadoso no teu espiritual aproveitamento.


Nota: É um grande bem a paz; vale mais que todos os bens do mundo. As honras, as riquezas e os prazeres de nada aproveitam sem a paz. Uma família pobre e obscura, que vive em santa paz, é feliz; uma família opulenta, que gasta a vida na embriaguez dos vícios, é desgraçada. A verdadeira paz nesta vida há-de procurar-se no cumprimento integral dos nossos deveres. 

Para os ímpios não pode haver paz: não têm paz os ímpios, diz o Senhor (Is. 48, 22). Assim o ensina a razão; se no nosso corpo se desloca um osso, logo sentimos horríveis dores; do mesmo modo, se na ordem moral faltamos ao cumprimento dos nossos deveres, logo sentimos as arguições da consciência, não temos paz. Todos os seres tendem naturalmente para o seu fim; o fim do homem é Deus; por isso quanto mais o homem se unir a Deus, tanto maior será a sua paz. 

Não se pode chegar à verdadeira paz de espírito senão pela mortificação contínua. Quem vive sob o império duma paixão desordenada, qualquer que ela seja, não vive em paz; um rico avarento é mais infeliz que um mendigo resignado. Não te desculpes, dizendo que não podes ter paz, porque os teus sofrimentos, os deveres do teu estado, ou a tua família te não permitem uma só hora de sossego. A paz é compatível com todos os estados e condições; aprende a sofrer e terás muita paz. A ciência de bem viver depende da ciência de bem sofrer. 

Estou resolvido, meu Deus, a procurar a vossa paz pelo caminho da mortificação. Muitas vezes porém tenho faltado aos meus propósitos, e também agora receio ser vencido pelos meus inimigos. Amparai-me, pois, Senhor, com a vossa misericórdia, porque sou miserável."

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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Capítulo X. Como devemos acautelarmo-nos de toda a demasia nas palavras.

 1. Foge quanto puderes do reboliço dos homens; porque muito embaraça o tratar das coisas do mundo, ainda com boa intenção; pois mui facilmente somos manchados e vencidos da vaidade.
Quisera eu ter muitas vezes calado e não ter estado entre os homens.
Mas qual será a razão por que de tão boa vontade falamos e praticamos uns com os outros, sendo que raras vezes voltamos ao silêncio sem dano da consciência?
A razão disto é porque pretendemos ser consolados uns dos outros, com semelhantes conversações, e desejamos desafogar o coração fatigado de pensamentos diversos; e de mui boa vontade falamos e cuidamos das coisas que muito amamos, ou, como contrárias, sentimos.

2. Mas ai que as mais das vezes nos sai o nosso intento baldado!
Porque esta exterior consolação é grande detrimento à interior e divina.
Por isso vigiemos e oremos, para que se nos não passe ociosamente o tempo.
Se te é lícito e conveniente falar, seja de coisas que te edifiquem.
O mau costume e o descuido do nosso aproveitamento muito concorrem para a desenvoltura da língua.
Ajuda porém muito ao aproveitamento espiritual a devota conferência de coisas espirituais, particularmente quando muitas pessoas, semelhantes no ânimo e no espírito se unem a Deus.


Nota: A língua dos sábios ilustra a ciência: a boca dos loucos vomita sandices (Prov. 15, 2).
Nem sempre é tempo para tudo: há tempo para falar e guardar silêncio. Grande virtude é saber falar e calar a propósito. A nossa língua é como um mostrador, em que se reproduzem os afectos do coração e os estados da alma: se o coração está puro a linguagem é inocente; se está manchado também as palavras geralmente o revelam. Ditosa a língua que sabe guardar uma justa moderação nas palavras!
Quem fala muito arrisca-se a dizer inconveniências: nas muitas palavras não deixará de haver pecado; o que porém modera a sua língua esse é prudentíssimo (Prov. 10, 19). Há palavras de diversas espécies: maliciosas, blasfemas, injuriosas, equívocas, etc.; por isso é necessário que atendamos não só à quantidade, mas também à qualidade delas.
Evitemos por completo as palavras más e façamos por diminuir as conversas inúteis, que nos levam um tempo precioso. Examina todos os dias o uso que fazes da língua, com que Deus te beneficiou. Há no mundo muitas pessoas mudas e que talvez sejam mais santas do que tu. Um dia - não sabes quando - hás-de prestar contas rigorosas desse precioso talento, ao mesmo Senhor, que to concedeu, para que o louvasses.
Remediai, Senhor, com a vossa misericórdia a minha fraqueza, porque eu nada sei, sem as luzes da vossa sabedoria infinita, nada posso, sem o auxílio da vossa omnipotência. Recebo os vossos dons e não sei agradecê-los, fazendo bom uso deles! Eu vos consagro, pois a minha língua para que a reguleis em tudo e sempre, segundo a vossa vontade.

sábado, 30 de outubro de 2021

Capítulo IX. Da obediência e sujeição.

 1. Grande coisa é estar em obediência, viver debaixo da sujeição do prelado e não estar em liberdade.
Muito mais seguro é estar em sujeição que em prelazia e superioridade.
Muitos estão debaixo da obediência, mais por força que por amor; estes tais sentem pena e facilmente murmuram; nem alcançarão liberdade de espírito, se se não sujeitarem de todo o coração por amor de Deus.
Por mais que andes de uma para outra parte, não acharás descanso senão na humilde sujeição ao governo do prelado ou superior.
A imaginação e a mudança dos lugares tem enganado a muitos.

2. Verdade é que cada um se governa de boa vontade pelo seu parecer, e se inclina mais aos que concordam com ele; mas, se Deus está entre nós, necessário é que deixemos algumas vezes o nosso próprio parecer pelo bem da paz.
Quem é tão sábio que saiba cabalmente tudo?
Não queiras pois confiar complacentemente no teu parecer, mas procura também ouvir de boa vontade o alheio.
Se o teu parecer é bom, e o deixas por amor de Deus e segues o dos outros, mais aproveitarás desta maneira.

3. Muitas vezes tenho ouvido dizer, que é mais seguro ouvir e tomar conselho do que dá-lo.
Bem pode suceder que seja bom o parecer dum; mas não querer estar pelo que sentem os outros, quando a razão ou a causa o pede, é sinal de soberba e pertinácia.


Nota: Olha em volta de ti e verás que todas as criaturas te oferecem o exemplo da obediência.
O sol, a lua, as estrelas, a terra e o mar obedecem às leis que o seu Criador lhes impôs.
Os dias e as noites, as estações e os anos sucedem-se periodicamente, com uma ordem admirável.
Só em épocas determinadas é que as plantazinhas se vestem de flores e carregam de frutos. As diversas espécies de animais seguem os impulsos dos seus instintos. A natureza é um livro aberto diante dos teus olhos, no qual podes ler e aprender a obediência, que deves ao teu Senhor. Os outros seres obedecem por necessidade e sem consciência; tu deves obedecer por vontade e com conhecimento das relações que te prendem a Deus.
Foi o próprio Jesus Cristo que te ensinou a dizer: seja feita, Senhor, a vossa vontade assim na terra como no Céu... Não estejas, pois, em contradição contigo próprio, pedindo uma coisa tuas palavras e manifestando outras nas tuas obras.
Se não obedeceres de boa vontade - como filho - ao melhor de todos os pais, que é Deus, obedecerás por força e como escravo ao pior de todos os tiranos, que é o demónio. Entre a liberdade e a escravidão não há meio termo. Desobedeces a Deus, desobedecendo aos teus superiores. Ao jugo da submissão nenhuma criatura pode escapar. Os anjos rebeldes tentaram e não o conseguiram. Queres tu consegui-lo? Ouçam bem os filhos que não obedecem a seus pais, e os pais que não obedecem ao Pai Supremo.
Adoro, Senhor, a vossa infinita majestade, reconheço e confesso que por muitas vezes tenho desobedecido à vossa lei, agora porém estou sinceramente arrependido e prometo ser daqui por diante mais dócil às vossas inspirações; ajudai-me com a vossa graça para que não falte aos meus propósitos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Capítulo VIII. Como se há-de evitar a muita familiaridade.

 1. Não descubras o teu coração a qualquer homem (Ecc. 8, 22); mas comunica teus negócios com o sábio e temente a Deus.
Com moços e estranhos conversa pouco; com os ricos não sejas lisonjeiro, e não estejas por tua vontade diante dos grandes.
Acompanha com os humildes e singelos, com os devotos e bem acostumados, e trata com esses coisas de edificação.
Não tenhas familiaridade com mulher alguma, mas em geral encomenda a Deus todas as boas.
Deseja ser familiar somente com Deus e com os seus anjos e foge de ser conhecido dos homens.

2. Justo é ter caridade com todos, mas não convém ter familiaridade.
Algumas vezes sucede que uma pessoa desconhecida se estima pela boa fama, e desagrada a sua presença aos olhos que a vêem.
Imaginamos algumas vezes agradar aos outros com a nossa conversação, e mais lhes aborrecemos, porque vêem em nós a desordem dos nossos costumes.


Nota: Um homem que se põe a caminho para fazer uma viagem, não perde jamais de vista o rumo para onde se dirige; assim deve fazer o cristão na viagem do tempo para a eternidade; deve usar das criaturas somente na medida em que elas o conduzam para Deus. Muitas vezes se começa bem e se acaba mal; pelo uso chega-se ao abuso. Relações inocentes, começadas com boa intenção, mas continuadas e mantidas com pouca prudência, terminam em quedas miseráveis.
São mui raros os verdadeiros amigos: um amigo fiel é uma protecção forte: quem chega a encontrá-lo, encontra um tesouro (Ecc. 6, 14).
Vivemos em sociedade, forçoso é que tratemos uns com os outros, mas entre pessoas de sexo diferente importa que haja sempre a máxima cautela. Afasta os teus olhos da mulher enfeitada, e não te detenhas a examinar a mulher alheia; por causa da beleza da mulher muitos têm perecido: e dela se inflama a concupiscência, à maneira de um incêndio (Ecc. 9, 8-9). Quem ama conscientemente a ocasião de pecar, ama o mesmo pecado. Quem ama o perigo, perecerá nele (Ecc. 3, 37). Importa evitar as más companhias; afastai-vos de mim todos vós, que praticais a iniquidade (Ps. 6, 9). Dêmos o nosso coração a Deus por inteiro.
Lembra-te que Nosso Senhor te deu olhos só para veres o que é lícito ver-se, e não para que o ofendas. Quando abusas dos olhos, dos ouvidos, da língua, dos sentidos do corpo, dos afectos do coração, das potências da alma, para ofenderes a Deus, és um ingrato, que voltas contra o teu Senhor os mesmos dons com que devias glorificá-lo.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Capítulo VII. Como se há-de fugir à vã esperança e à soberba.

 1. Vão é aquele que põe a esperança nos homens ou nas criaturas.
Não te envergonhes de servir os outros por amor a Jesus Cristo, e parecer pobre neste mundo.
Não confies em ti mesmo, mas põe em Deus a tua esperança.
Faze o que puderes, e Deus favorecerá a tua boa vontade.
Não confies na tua ciência, nem na indústria de algum vivente: mas somente na graça de Deus, que ajuda os humildes e humilha os presumidos.

2. Se tens riquezas, não te glories delas, nem dos teus amigos por serem poderosos; mas de Deus, que tudo dá e sobretudo se deseja dar a si mesmo. 
Não te desvaneças pela grandeza ou formosura do corpo, que com qualquer enfermidade se corrompe e afeia.
Não tenhas complacência na tua habilidade e engenho, para que não desagrades a Deus, de quem é todo o bem natural que tiveres.

3. Não te avalies por melhor que os outros: para que não sejas talvez tido por pior aos olhos de Deus, que conhece o que há no homem.
Não te ensoberbeças pelas tuas obras: pois que são mui diferentes dos juízos dos homens os de Deus, ao qual muitas vezes desagrada o que aos homens contenta.
Se tiveres algum bem, considera que os outros os têm maiores, para que assim te conserves em humildade.
Nada perdes se a todos te submeteres; mas grande mal é que te anteponhas, ainda que seja somente a um.
O humilde goza de continua paz; porém ao coração do soberbo muitas vezes domina a indignação e a inveja.


Nota: O que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado (S. Mat. 23, 21).
A soberba consiste no amor desordenado da própria estima: o soberbo quer subir sempre, ser admirado, respeitado e mesmo temido. Uma posição humilde contrista-o, um lugar obscuro tortura-o sente dentro de si um fogo que o devora; quer luzir aos olhos, embora tenha de sacrificar os deveres mais sagrados. Apresenta-se como ídolo aos olhos de seus irmãos, para que todos lhe queimem incenso. Que loucura! Como é que a terra e a cinza se ensoberbecem? A soberba é odiosa a Deus e aos homens (Ecc. 11, 7-9).
Não amamos a Deus, que é infinitamente amável, e amamo-nos a nós mesmos, até ao extremo de nos preferirmos a Deus! Nada temos que seja nosso, tudo devemos a Deus, e ousamos apresentar-nos como soberanos absolutos!
Um soberbo é um louco, em maior ou menor escala, por isso não reconhece a sua fraqueza.
Que um ateu seja soberbo, não é para estranhar, mas que um cristão, um discípulo de Jesus Cristo, se mostre ignorante da ciência da cruz, é uma anomalia.
Prostra-te aos pés de Jesus crucificado, contempla bem, desde a cabeça até aos pés, aquele teu mestre e resolve-te a imitá-lo. Não interponhas delongas em converter-te para Deus, e não defiras a conversão de dia para dia: porque de repente virá a ira do Senhor, e no mesmo tempo da vingança te perderá para sempre (Ecc. 5, 8-9).

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Capítulo VI. Dos afectos desordenados.

 1. Todas as vezes que o homem desordenadamente deseja alguma coisa, logo se acha inquieto.
O soberbo e o avarento nunca sossegam; o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz.
O homem que ainda não está perfeitamente morto para si, facilmente é tentado e vencido em coisas pequenas e vis.
O fraco de espírito, e que ainda está inclinado ao que é sensual, com dificuldade se pode despegar totalmente dos desejos terrenos; e por isso muitas vezes se entristece, quando se abstém, e facilmente se indigna, quando alguém o contraria.

2. Porém, se alcança o que desejava, logo se sente torturado pelo remorso da consciência porque seguiu o seu apetite, que nada aproveita para alcançar a paz que buscava.
Em resistir pois às paixões se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las.
Não há, finalmente, paz no coração do homem carnal nem no homem que se ocupa nas coisas exteriores, mas no que é fervoroso e espiritual.


Nota: Nenhum coração há isento de paixões; desde que o homem rompeu as pazes com Deus, pelo primeiro pecado, ficou também em guerra consigo próprio. Os ódios, as lutas, as guerras que se desencadeiam no meio da sociedade são a exteriorização das pugnas secretas, que se travam no coração do homem. É pelo ardor e constância na luta, que se hão-de conquistar os benefícios da paz - paz connosco, paz com o nosso próximo e paz com Deus.
É uma milícia a vida do homem sobre a terra: e os seus dias semelhantes aos de um estipendiado (Job, 7, 1). Desde que os apetites, desejos e paixões deixam de obedecer à razão, logo o homem começa a sentir-se agitado: rompeu-se o equilíbrio em que deviam exercer-se as faculdades da sua alma. Que precauções a tomar contra tão grande mal?
Eis as regras gerais que se deve ter em vista:
1.ª - Examina bem a tua consciência todos os dias e estuda as tuas inclinações; muito aprenderás, se aprenderes a conhecer-te.
2.ª - Lembra-te sempre de que as paixões crescem na medida em que se alimentam; se lançares combustível no fogo, mais atearás o incêndio. Sujeita as paixões à razão e a razão a Deus; obedece ao dever e não ao prazer.
3.ª - Não te envergonhes de pedir conselho sobre tão importante assunto. Se para as enfermidades do corpo procuras médicos da tua confiança, não é muito que, para sanares os achaques da alma, busques os médicos das almas, escolhendo de entre os bons os mais sábios, experimentados e santos. Todos devemos obedecer a um guia.
Alumiai-me, Senhor, com as luzes da vossa graça, para que bem conheça os meus defeitos, que são muito grandes...

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Capítulo V. Da lição das escrituras.

 1. Nas Escrituras santas deve buscar-se a verdade e não a eloquência.
Toda a Escritura santa deve ser lida com o mesmo espírito com que foi feita.
Nas Escrituras antes devemos buscar a utilidade que a subtileza.
Por isso de tão boa vontade devemos ter os livros singelos e devotos, como os alevantados e profundos.
Não te mova a autoridade de quem escreve se é de pouca ou muita ciência, mas obrigue-te a ler o amor da pura verdade.
Não procures saber quem o disse, mas atende ao que se disse.

2. Os homens passam; mas a verdade do Senhor permanece por toda a eternidade.
Por vários modos nos fala Deus, sem aceitação de pessoas.
A nossa curiosidade muitas vezes nos embaraça na lição das Escrituras quando queremos entender e esquadrinhar o que se devia passar singelamente.
Se queres aproveitar, sê humilde, singelo e fiel: e nunca desejes o nome de literato.
Pergunta de boa vontade e ouve em silêncio as palavras dos santos: nem te desagrades das sentenças dos velhos, porque não as dizem sem causa.


Nota: A constituição apostólica Officiorum ac munerum, de 25 de Janeiro de 1879, proíbe o uso da Sagrada Escritura, em língua vulgar: (*)
Sendo manifesto que, se a Bíblia em língua vulgar for autorizada sem discernimento, daí resultarão, por causa da imprudência dos homens, mais inconvenientes que vantagens, são absolutamente proibidas todas as versões em língua vernácula, inclusive as publicadas por católicos, se não houverem sido aprovadas pela Santa Sé, ou editadas sob a vigilância dos Bispos, com anotações tiradas dos Padres da Igreja e de escritores doutos ou católicos.
São também proibidas todas as versões dos Livros Sagrados, feitas por escritores não católicos, em qualquer língua vulgar - e nomeadamente as publicadas pelas Sociedades Bíblicas, que por mais duma vez os Pontífices romanos têm condenado, pois na edição destes livros têm sido absolutamente descuradas as salutaríssimas leis da Igreja.

São exceptuadas de tal proibição as pessoas que se aplicam aos estudos teológicos e bíblicos, contanto que as bíblias que lerem, em qualquer língua, não ataquem os dogmas da fé em prefácios ou notas.
É de todos os tempos este zelo da Igreja, em velar pela integridade da fé e boa conduta de seus filhos. A leitura é um alimento e nem todos os alimentos convêm a todos os estômagos. Devem evitar-se os maus escritos, como venenosos, e escolher de entre os bons os que melhor se amoldarem ao carácter e circunstâncias de cada indivíduo. Não nos deixemos arrastar pela curiosidade pueril de tudo ler e examinar.
Deus de misericórdia e bondade, divino Pastor das almas que vos dignastes instruir-me com a vossa palavra, dai-me as luzes necessárias para conhecer o mal que tenho feito e o bem que devo fazer; tornai-me dócil aos ensinamentos da vossa Igreja, em todos os dias da minha vida.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Capítulo IV. Da prudência nas acções.

 1. Não se há-de dar crédito a toda a palavra, nem julgar ao de leve; antes com prudência e vagar se devem, segundo Deus, examinar as coisas.
Mas ai que mais facilmente cremos, e dizemos mal que bem do próximo: a tanto chega a nossa fraqueza!
Os varões perfeitos não crêem de leve tudo o que se lhes conta: porque sabem que a natureza humana é muito inclinada ao mal, pouco segura nas palavras e nada cautelosa.

2. Que grande sabedoria é não ser precipitado no que se há-de obrar, nem demasiadamente apegado ao seu próprio parecer.
A esta sabedoria também pertence não crer quaisquer palavras dos homens, nem dizer logo aos outros o que se creu ou ouviu.
Toma conselho com o varão sábio e de boa consciência; e trata antes de ser ensinado de outro melhor que de seguir o teu parecer.
A boa vida faz o homem sábio, segundo Deus, e experimentado em muitas coisas.


Nota: Entre as virtudes cardiais ou fundamentais, tem o primeiro lugar a prudência, que nos ensina a obrar com reflexão, conselho, firmeza e vigilância racional. Quem obra por inclinação, ou paixão, não obra como cristão, e nem sequer como homem. Devemos fugir da indolência, mas sem nos deixarmos arrastar pela precipitação. Aos seres inanimados impôs Deus leis fatais, que lhes regulam todos os movimentos; aos animais deu-lhes instinto, ao homem enriqueceu-o com as luzes da razão e da fé.
Mas quantas vezes nos acontece obrar precipitadamente, sem termos escutado primeiro nem os ditames da nossa razão, nem o conselho de quem nos podia dirigir? Assim como para ver não basta que uma pessoa tenha olhos, mas é necessário que os olhos estejam sãos e abertos, e os objectos iluminados, assim também é necessário obrar sempre com cuidado e circunspecção. Não é uma arte de pouca importância a que nos ensina a viver bem.
Amai o Senhor, vós que o temeis e os vossos corações serão iluminados (Ecc. 2, 10). É fraco o nosso entendimento e densas as trevas que o obscurecem; mas humilhemo-nos a suprir a nossa insuficiência com o auxílio de Deus e das pessoas mais ajuizadas. Com razão se diz que a prudência é própria dos velhos. A experiência alheia pode preservar-nos de muitos erros e vícios.
Meu Deus, nada tenho de bom, senão aquilo mesmo com que a vossa infinita misericórdia me tem enriquecido: ensinai-me a fazer bom uso dos dons que me dispensastes, e guiai-me em todos os momentos da minha vida, para que não me afaste jamais do recto caminho da vossa lei.

sábado, 23 de outubro de 2021

Capítulo III. Da doutrina da verdade.

 1. Bem-aventurado aquele a quem a verdade por si mesma ensina, não por figuras e vozes que passam, mas como em si é.
A nossa opinião, e o nosso sentir muitas vezes nos engana e pouco alcança.
Que aproveita a subtil especulação de coisas ocultas e escuras, de cuja ignorância não seremos repreendidos no dia do juízo?
Grande loucura é que, deixando as coisas úteis e necessárias, nos apliquemos com gosto às curiosas e nocivas.
Verdadeiramente tendo olhos não vemos.

2. Que se nos dá dos géneros e das espécies?
A quem fala o Verbo eterno, de muitas opiniões se desembaraça.
Deste só Verbo procedem todas as coisas e todas nos anunciam uma só, - e este é o princípio que nos fala.
Ninguém entende ou julga rectamente sem ele.
Aquele para quem Deus é todas as coisas, que todas as coisas refere a Deus, em Deus vê todas as coisas; pode ser firme de coração, e permanecer pacífico em Deus. Ó Deus verdadeiro, fazei-me um só convosco em caridade perpétua.
Enfastia-me por vezes ler e ouvir muitas coisa: em Vós está tudo o que quero e desejo.
Calem-se todos os doutores e emudeçam todas as criaturas à vossa vista; falai-me somente Vós.

3. Quando cada um for mais recolhido consigo, e mais singelo no seu coração, tanto mais abundantes e mais altas coisas entenderá sem trabalho; porque de cima recebe a luz da inteligência.
O espírito puro, singelo e constante não se distrai, ainda que se ocupe em muitas coisas, porque tudo opera para honra de Deus, e cuidadosamente procura não buscar em nenhuma o seu próprio interesse.
Quem mais te impede e perturba do que a afeição do teu coração, não mortificada?
O bom e devoto varão primeiro ordena interiormente as obras que no exterior deve fazer; nem elas o arrastam, ou fazem  descer até às inclinações viciosas, antes o conduzem e guiam no arbítrio da sua recta razão.
Quem tem maior combate, que quem trabalha por se vencer a si mesmo?
E este devia ser todo o nosso empenho; vencermo-nos a nós mesmos, aumentando cada dia o nosso esforço e melhorando-nos em nosso aproveitamento.

4. Toda a perfeição desta vida tem anexa a si certa imperfeição, e toda a nossa especulação encerra alguma obscuridade.
O humilde conhecimento de ti mesmo é mais certo caminho para Deus, que a perfeita inquirição da ciência.
Não se deve culpar a ciência ou qualquer outra notícia das coisas, pois em si considerada boa é, e ordenada por Deus; mas sempre se lhe há-de antepor a boa consciência e a vida virtuosa.
Mas, porque muitos estudam mais para saberem, que para bem viverem, erram muitas vezes, e pouco ou nenhum fruto colhem.

5. Oh! se tanta diligência pusessem em desarraigar vícios e plantar virtudes, como em mover questões, não haveria tantos males e escândalos no povo, nem tanta dissolução nos mosteiros!
Certo que no dia de Juízo não nos perguntarão o que lemos, mas o que fizemos; nem quão elegantemente temos falado, mas quão rigorosamente temos vivido.
Dizei-me: onde estão agora todos aqueles doutores e mestres que conhecestes, quando viviam e floresciam nos seus estudos? Já outros possuem as suas rendas, e não sei se há quem deles se lembre.
Em sua vida pareciam alguma coisa, e hoje não há deles memória.

6. Oh! como apressadamente passa a glória do mundo! Prouvera a Deus que a sua vida concordara com a sua ciência, e então teriam bem lido e bem estudado! Quantos por sua vã ciência se perdem neste mundo, quantos que tratam pouco do serviço de Deus?
E porque escolhem antes ser grandes, que humildes se desvanecem nos seus pensamentos.
Verdadeiramente grande é aquele que na sua estimação é pequeno, e que avalia em nada a maior honra.
Verdadeiramente prudente é o que tem por vis todas as coisas da terra, para ganhar a Cristo.
E verdadeiramente sábio é quem faz a vontade de Deus e deixa a sua.


Nota: É Deus o primeiro princípio e o último fim de todas as coisas; tudo procede de Deus e tudo se ordena para Deus. Acima das criaturas visíveis está o homem, como rei da criação; acima de todas as criaturas visíveis e invisíveis está Deus, o seu incriado, que existe por si mesmo, sem dependência de nenhum outro ser, e de quem tudo depende.
A ciência que se orgulha de negar a existência de Deus e a palavra divina não merece o nome de ciência, por isso que revela um estado enfermiço de rematada loucura. Hoje, mais que nunca, importa escutar o aviso de S. Mateus (cap. 7, v. 15 e 16): guardai-vos dos falsos profetas, que se acercam de vós com aparências de ovelhas e são na realidade lobos arrebatadores: é pelos frutos que haveis de conhecê-los.
Colocado entre o Céu e a terra, e composto de corpo e alma, o homem quanto ao corpo vive da terra, mas não deve viver para a terra, onde é somente peregrino; quanto à alma imortal de que é dotado, deve viver do Céu e para o Céu. O seu entendimento procura a verdade, e Deus é a verdade suma; de Deus, pelo canal da Igreja católica, deve ele receber os ensinamentos divinos de que necessita. Filho, não cesses de ouvir a doutrina, nem ignores as instruções da sabedoria (Prov. 19, 27). Ao lado dos ministros de Deus, estão os apóstolos da mentira, que pregam sempre em conciliábulos, jornais, livros, estampas, etc.; é necessário, pois, estar de sobreaviso e invocar com frequência as luzes do Espírito Santo.
Espírito Santíssimo, generoso dispenseiro dos dons celestes, alumiai o meu espírito, para que eu não chegue jamais a cair nas ciladas dos apóstolos de Satanás: infundi-me do alto a vossa luz e a vossa verdade (Ps. 42, 3).

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Capítulo II. Como deve cada um sentir humildemente de si mesmo.

 1. Todos os homens naturalmente desejam saber. Mas que aproveita a ciência sem o temor de Deus?
Por certo, melhor é um rústico humilde, que serve a Deus, do que um soberbo filósofo que, deixando de se conhecer a si mesmo, observa os movimentos do céu.
Aquele que perfeitamente se conhece tem-se por vil, e não se deleita nos louvores humanos.
Se eu soubera tudo o que há no mundo, e não tivesse caridade, que me aproveitaria diante de Deus que me há-de julgar pelas obras?

2. Não tenhas demasiado desejo de saber, porque se acha nele distraimento e engano.
Os literatos gostam de ser tidos e aplaudidos por tais.
Muitas coisas há, que o sabê-las pouco ou nada aproveita à alma, e mui louco é o que atende a outras mais, que não tocam à sua salvação.
As muitas palavras não enchem a alma, mas a boa vida refrigera o espírito, e a pura consciência lhe dá grande confiança em Deus.

3. Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente será julgado, se não viveres mui santamente.
Por isso não te orgulhes de nenhuma arte ou ciência, mas teme antes pelo conhecimento que se te deu.
Se te parece que sabes muito, e que muito bem o entendes, tem por certo que é muito mais o que ignoras.
Não queiras alta sabedoria (Rom. 11, 20), mas confessa a tua ignorância. Para que te queres ter em mais que os outros, achando-se muitos mais doutos e sábios na lei de Deus do que tu?
Se queres proveitosamente saber e aprender alguma coisa, deseja que te não conheçam, e te desprezem.

4. O verdadeiro conhecimento e desprezo de si mesmo é altíssima e importantíssima lição.
Grande sabedoria e perfeição é sentir sempre bem e altas coisas dos outros, e a si ter-se e avaliar-se em nada.
Se vires alguém pecar pùblicamente, ou cometer culpas graves, não te deves julgar por melhor; porque não sabes até quando poderás perseverar no bem.
Todos somos fracos, mas a ninguém tenhas por mais fraco que a ti.


Nota: Tão fraco e miserável é o homem, que até das coisas boas precisa de arrecear-se. As riquezas, as honras, os prazeres inocentes e moderados são bens de que o homem pode gozar lícitamente; mas são também ocasião perigosa de grandes males.
Depois da virtude, é a ciência o melhor de todos os bens, a que podemos aspirar; mas nem por isso está isenta de perigos; porque é um incentivo da soberba e do orgulho.
Qualquer, portanto, que seja o assunto de que se trate, importa sempre atender às disposições do nosso espírito, e olhar mais para dentro do que para fora. Podem as coisas, boas em si mesmas, tornar-se más para nós, ou que pelo desejo desordenado com que as procuramos, ou pelo abuso que fizermos delas. A verdadeira ciência há-de assentar em dois princípios fundamentais: no conhecimento íntimo de nós mesmos e no conhecimento de Deus.
São bem conhecidas as máximas dos filósofos gregos: conhece-te a ti mesmo; só sei que nada sei.
Na verdade, a consideração do nosso próprio nada leva-nos naturalmente a reconhecer a dependência em que estamos de Deus. Se nada temos que seja nosso, se devemos a Deus tudo quanto somos e possuímos que motivo razoável poderemos encontrar para nos ensoberbecermos? Somos estéreis para o bem, por nossas inclinações, e só fecundos para o mal; é de Deus que nos vem toda a suficiência para produzirmos frutos de salvação. Aquele que mais e maiores dons possuir, mais rigorosa conta há-de prestar um dia.
Meu Deus e meu Senhor, prostrado na vossa presença, reconheço e confesso que por muitas vezes tenho sido ingrato para convosco, abusando dos vossos dons; agora, porém, confiado na vossa misericórdia, estou resolvido a reparar o passado e a ser mais cauteloso no futuro. A humilhação que me enviaste fez-me conhecer a justiça das vossas disposições (Ps. 118, 71).

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Capítulo I. Do desprezo de todas as vaidades do mundo.

 1. Diz o Senhor: quem me segue não anda nas trevas (João, 8, 12). São de Jesus Cristo estas palavras, em que nos admoesta que imitemos sua vida e costumes, se queremos ser verdadeiramente alumiados e livres de toda a cegueira do espírito. 
Seja pois todo o nosso cuidado meditar a vida de Jesus Cristo.

2. A doutrina de Jesus Cristo excede as doutrinas de todos os santos; e quem tivesse o seu espírito acharia nela um maná escondido.
Mas sucede que muitos, com ouvirem frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco gosto, porque não têm o espírito de Cristo.
Porém, quem quiser com satisfação e proveito entender as palavras de Cristo, convém-lhe que procure conformar com Ele toda a sua vida.

3. Que te aproveita disputar altas coisas da Trindade, se não és humilde, e por isso desagradas a essa mesma Trindade?
Verdadeiramente, as palavras subidas não fazem o santo, nem o justo; mas a vida virtuosa faz o homem agradável a Deus.
Antes quero sentir a compunção que saber defini-la
Se soubesses de cor toda a Bíblia, e os ditos de todos os filósofos, que te aproveitaria tudo isto sem a caridade e graça de Deus?
Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (Eccl.1, 2), excepto o amar e servir sòmente a Deus.
A suma sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo caminhar para o reino dos Céus.

4. Sendo pois isto assim, vaidade é buscar grandezas, que acabam, e pôr nelas a esperança.
Vaidade é também pretender honras e desvanecer-se com elas.
Vaidade é seguir os apetites da carne, e desejar o que depois há-de ser motivo de arrependimento e grave castigo.
Vaidade é esperar e desejar vida larga, e cuidar pouco de que seja boa.
Vaidade é atender sòmente a esta vida, e não prevenir para a futura.
Vaidade é amar o que com tanta ligeireza passa e não buscar com fervor o gozo que sempre dura.

5. Lembra-te frequentemente daquele provérbio: não se farta a vista de ver, nem o ouvido de ouvir.
Procura pois desapegar o teu coração das coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis; porque os que seguem a sensualidade mancham a consciência e perdem a graça de Deus.


Nota: Jesus Cristo é luz para os cegos, caminho, para os extraviados e modelo divino para todos os homens. E contudo há muitos cegos de espírito que caminham nas trevas, como se Jesus Cristo não tivera ainda vindo ao mundo! Afadigam-se, dia e noite, em desvendar os mistérios da ciência humana, que lisonjeia a vaidade, e nada querem saber da ciência divina que sacia o coração. Querem ser grandes aos olhos dos homens e tornam-se pequenos aos olhos de Deus; fazem obra para o tempo e nada edificam para a eternidade. Serás tu do número desses? Será ainda o Evangelho um tesouro escondido para ti? Se assim é apressa-te a mudar de vida, escutando com submissão e praticando com zelo a doutrina de Jesus Cristo.
É necessário aliar a pureza da fé com a santidade da vida: a fé sem obras é morta. De que te aproveita viver muitos anos, se não vives santamente? Só é verdadeiramente digno de viver quem vive para Deus. Bem curta é a distância que tens a percorrer entre o berço e a sepultura: o tempo que tens passado é como se nunca tivera existido; o presente desaparece rápido; o futuro não podes dispor dele. Mede, pois, o valor das coisas pelas vantagens que elas te oferecem, para a salvação eterna; serão mais valiosas e estimáveis as que mais te aproveitarem para a eternidade.

Meu Deus, ensinai-me a pedir as graças de que necessito, para me tornar vosso servo; dai-me luz para conhecer o que devo propor, e força para cumprir com fidelidade os meus propósitos. Preservai-me das seduções da vaidade e fazei-me viver no vosso caminho (Ps. 118, 37). Afastai para longe de mim a vaidade e as palavras mentirosas (Prov. 30, 8).










Capitulo XX. Do amor da solidão e do silêncio.

 1. Busca tempo acomodado para atenderes a ti mesmo, e considera amiúdo os benefícios de Deus. Deixa as coisas curiosas e lê livros que sirv...