sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Capítulo VIII. Como se há-de evitar a muita familiaridade.

 1. Não descubras o teu coração a qualquer homem (Ecc. 8, 22); mas comunica teus negócios com o sábio e temente a Deus.
Com moços e estranhos conversa pouco; com os ricos não sejas lisonjeiro, e não estejas por tua vontade diante dos grandes.
Acompanha com os humildes e singelos, com os devotos e bem acostumados, e trata com esses coisas de edificação.
Não tenhas familiaridade com mulher alguma, mas em geral encomenda a Deus todas as boas.
Deseja ser familiar somente com Deus e com os seus anjos e foge de ser conhecido dos homens.

2. Justo é ter caridade com todos, mas não convém ter familiaridade.
Algumas vezes sucede que uma pessoa desconhecida se estima pela boa fama, e desagrada a sua presença aos olhos que a vêem.
Imaginamos algumas vezes agradar aos outros com a nossa conversação, e mais lhes aborrecemos, porque vêem em nós a desordem dos nossos costumes.


Nota: Um homem que se põe a caminho para fazer uma viagem, não perde jamais de vista o rumo para onde se dirige; assim deve fazer o cristão na viagem do tempo para a eternidade; deve usar das criaturas somente na medida em que elas o conduzam para Deus. Muitas vezes se começa bem e se acaba mal; pelo uso chega-se ao abuso. Relações inocentes, começadas com boa intenção, mas continuadas e mantidas com pouca prudência, terminam em quedas miseráveis.
São mui raros os verdadeiros amigos: um amigo fiel é uma protecção forte: quem chega a encontrá-lo, encontra um tesouro (Ecc. 6, 14).
Vivemos em sociedade, forçoso é que tratemos uns com os outros, mas entre pessoas de sexo diferente importa que haja sempre a máxima cautela. Afasta os teus olhos da mulher enfeitada, e não te detenhas a examinar a mulher alheia; por causa da beleza da mulher muitos têm perecido: e dela se inflama a concupiscência, à maneira de um incêndio (Ecc. 9, 8-9). Quem ama conscientemente a ocasião de pecar, ama o mesmo pecado. Quem ama o perigo, perecerá nele (Ecc. 3, 37). Importa evitar as más companhias; afastai-vos de mim todos vós, que praticais a iniquidade (Ps. 6, 9). Dêmos o nosso coração a Deus por inteiro.
Lembra-te que Nosso Senhor te deu olhos só para veres o que é lícito ver-se, e não para que o ofendas. Quando abusas dos olhos, dos ouvidos, da língua, dos sentidos do corpo, dos afectos do coração, das potências da alma, para ofenderes a Deus, és um ingrato, que voltas contra o teu Senhor os mesmos dons com que devias glorificá-lo.

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