segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Capítulo IV. Da prudência nas acções.

 1. Não se há-de dar crédito a toda a palavra, nem julgar ao de leve; antes com prudência e vagar se devem, segundo Deus, examinar as coisas.
Mas ai que mais facilmente cremos, e dizemos mal que bem do próximo: a tanto chega a nossa fraqueza!
Os varões perfeitos não crêem de leve tudo o que se lhes conta: porque sabem que a natureza humana é muito inclinada ao mal, pouco segura nas palavras e nada cautelosa.

2. Que grande sabedoria é não ser precipitado no que se há-de obrar, nem demasiadamente apegado ao seu próprio parecer.
A esta sabedoria também pertence não crer quaisquer palavras dos homens, nem dizer logo aos outros o que se creu ou ouviu.
Toma conselho com o varão sábio e de boa consciência; e trata antes de ser ensinado de outro melhor que de seguir o teu parecer.
A boa vida faz o homem sábio, segundo Deus, e experimentado em muitas coisas.


Nota: Entre as virtudes cardiais ou fundamentais, tem o primeiro lugar a prudência, que nos ensina a obrar com reflexão, conselho, firmeza e vigilância racional. Quem obra por inclinação, ou paixão, não obra como cristão, e nem sequer como homem. Devemos fugir da indolência, mas sem nos deixarmos arrastar pela precipitação. Aos seres inanimados impôs Deus leis fatais, que lhes regulam todos os movimentos; aos animais deu-lhes instinto, ao homem enriqueceu-o com as luzes da razão e da fé.
Mas quantas vezes nos acontece obrar precipitadamente, sem termos escutado primeiro nem os ditames da nossa razão, nem o conselho de quem nos podia dirigir? Assim como para ver não basta que uma pessoa tenha olhos, mas é necessário que os olhos estejam sãos e abertos, e os objectos iluminados, assim também é necessário obrar sempre com cuidado e circunspecção. Não é uma arte de pouca importância a que nos ensina a viver bem.
Amai o Senhor, vós que o temeis e os vossos corações serão iluminados (Ecc. 2, 10). É fraco o nosso entendimento e densas as trevas que o obscurecem; mas humilhemo-nos a suprir a nossa insuficiência com o auxílio de Deus e das pessoas mais ajuizadas. Com razão se diz que a prudência é própria dos velhos. A experiência alheia pode preservar-nos de muitos erros e vícios.
Meu Deus, nada tenho de bom, senão aquilo mesmo com que a vossa infinita misericórdia me tem enriquecido: ensinai-me a fazer bom uso dos dons que me dispensastes, e guiai-me em todos os momentos da minha vida, para que não me afaste jamais do recto caminho da vossa lei.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Capitulo XX. Do amor da solidão e do silêncio.

 1. Busca tempo acomodado para atenderes a ti mesmo, e considera amiúdo os benefícios de Deus. Deixa as coisas curiosas e lê livros que sirv...