quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Capítulo VI. Dos afectos desordenados.

 1. Todas as vezes que o homem desordenadamente deseja alguma coisa, logo se acha inquieto.
O soberbo e o avarento nunca sossegam; o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz.
O homem que ainda não está perfeitamente morto para si, facilmente é tentado e vencido em coisas pequenas e vis.
O fraco de espírito, e que ainda está inclinado ao que é sensual, com dificuldade se pode despegar totalmente dos desejos terrenos; e por isso muitas vezes se entristece, quando se abstém, e facilmente se indigna, quando alguém o contraria.

2. Porém, se alcança o que desejava, logo se sente torturado pelo remorso da consciência porque seguiu o seu apetite, que nada aproveita para alcançar a paz que buscava.
Em resistir pois às paixões se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las.
Não há, finalmente, paz no coração do homem carnal nem no homem que se ocupa nas coisas exteriores, mas no que é fervoroso e espiritual.


Nota: Nenhum coração há isento de paixões; desde que o homem rompeu as pazes com Deus, pelo primeiro pecado, ficou também em guerra consigo próprio. Os ódios, as lutas, as guerras que se desencadeiam no meio da sociedade são a exteriorização das pugnas secretas, que se travam no coração do homem. É pelo ardor e constância na luta, que se hão-de conquistar os benefícios da paz - paz connosco, paz com o nosso próximo e paz com Deus.
É uma milícia a vida do homem sobre a terra: e os seus dias semelhantes aos de um estipendiado (Job, 7, 1). Desde que os apetites, desejos e paixões deixam de obedecer à razão, logo o homem começa a sentir-se agitado: rompeu-se o equilíbrio em que deviam exercer-se as faculdades da sua alma. Que precauções a tomar contra tão grande mal?
Eis as regras gerais que se deve ter em vista:
1.ª - Examina bem a tua consciência todos os dias e estuda as tuas inclinações; muito aprenderás, se aprenderes a conhecer-te.
2.ª - Lembra-te sempre de que as paixões crescem na medida em que se alimentam; se lançares combustível no fogo, mais atearás o incêndio. Sujeita as paixões à razão e a razão a Deus; obedece ao dever e não ao prazer.
3.ª - Não te envergonhes de pedir conselho sobre tão importante assunto. Se para as enfermidades do corpo procuras médicos da tua confiança, não é muito que, para sanares os achaques da alma, busques os médicos das almas, escolhendo de entre os bons os mais sábios, experimentados e santos. Todos devemos obedecer a um guia.
Alumiai-me, Senhor, com as luzes da vossa graça, para que bem conheça os meus defeitos, que são muito grandes...

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